Um poema de Joana Serrado

Contributos para uma botânica feminista

 

Sei que tu tens um gineceu. Eu também tenho um androceu. Se
fossemos coerentes, nem sequer falávamos. (L)íamos.

Leio-te em braille, cega de tanto esperar.

 

 

 

 

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“We´re all detectives, we want to know things…”

É uma das declarações de David Lynch no video que vos deixo. Com esta declaração ele fala sobre todos nós.
A verdade, uma necessidade vital, mesmo que contra a nossa essência, o nosso conforto, o nosso bem-estar. É assim que o ser humano funciona. Isso é muito bonito.
O ser humano não quer lidar com o estranho e com o desconhecido. David Lynch sabe-o. Desde o início. Desde Erasehead.

 

Para variar, um poeta: António Gancho

 

 

 Sobre Uma Manhã Qualquer

Manhã de ouro lhe poderíamos chamar se de ouro fora a primeira manhã
Adão inconfessado, e nada saberemos da primeira manhã
se afinal de ouro se afinal de prata.
Ainda possível ter sido de estanho?
A primeira manhã assim imaginada estanho e a cena desenrolar-se-á
com maçãs de estanho, aves de estanho, rios de estanho…
Adão não seria de estanho?
Adão inconfessado, e nada se saberá da manhã original.
A primeira manhã, a primeira luz, a primeira vida, a primeira lua
Tu, querida, o desejarias saber, o sei,
era teu desejo saber de que metal fora a primeira manhã!
Evidentemente que (e aqui sente-se já um cansaço a obcecar a caneta)
evidentemente que dizia
etc., etc.
e a respeito da primeira manhã afinal
que não interessa sabê-lo.
Olha, morre como o cigano, o pior é ires à escola.
Ah, os poetas são decididamente afectados.
Que raio de ideia esta de saber da primeira manhã?
Londrina a de hoje, e basta para tomar um excelente duche quente
com a água a pôr fervura na pele
e mais nada.
Da primeira manhã. Adão que se faça poeta e no-lo diga que metal

 

 

António Gancho nasceu em 1940, em Évora. Aos 20 anos foi internado pelo seu pai no Hospital Psiquiátrico Júlio de Matos, após uma tentativa de suicídio. Desde então percorreu diversos hospitais psiquiátricos, até ser, em 1967, definitivamente internado na Casa de Saúde do Telhal.
Em 1973, António Gancho entregou a Herberto Helder trinta e seis poemas, dos quais este seleccionou onze que incluiu no seu livro Edoi Lelia Doura — Antologia das Vozes Comunicantes da Poesia Moderna Portuguesa. Há quem diga que quando leu os poemas Herberto Helder disse, “era assim que eu gostava de escrever”.
Dizia ser Luiz Vaz de Camões, Bocage, Kafka, Pessoa e todos os escritores que admirava. Parece que dava nomes às borbulhas que tinha na cara, e escrevia os nomes delas ao lado, na sua própria cara.
Morreu em 2005 no Hospício do Telhal, Lisboa, onde esteve “preso” 38 anos, no dia de Ano Novo. Dizem que morreu com um sorriso no rosto.
Deixou poemas com este, que falam da sua lucidez e da sua liberdade.
 
  

David Foster Wallace (1962-2008)

 

 Estamos de luto. Morreu na sexta-feira, com 46 anos de idade, o escritor americano David Foster Wallace. Depressivo crónico nos últimos 20 anos, foi encontrado enforcado em sua casa na California pela mulher.  O facto foi hoje noticiado no Público e na TV.

Não há nada dele publicado em Portugal. Um pouco por causa disso ainda só lhe li uns contos, por aí pela internet. Terrivelmente imaginativos. Ainda não li a sua obra-prima, o torrencial romance “Infinite Jest”(mais de 1000 páginas), já publicado em meados dos 90, e que nos mostra uma paródia de um possível futuro dos EUA, na qual se critica o consumo de massas. E de drogas, já agora. Foi considerado um dos melhores livros em língua inglesa escrito no século XX.

Farewell. Pelo menos há um possível factor positivo nisto – será desta que algum editor português se lembra da existência (ou da já-não existência) deste talento da literatura? Muitas vezes é mesmo preciso morrer para isso.