Maio, Maduro Maio

É boa altura para recordarmos esse abanão cultural que foi o Maio de 68, quarenta anos passados. Este processo revolucionário (ainda em curso?) fica para a História, na opinião de alguns filósofos e historiadores, como o mais importante do século XX, principalmente porque não foi desenvolvido por uma camada restrita da população (trabalhadores ou minorias); foi uma insurreição popular que superou barreiras étnicas, culturais, de idade e de classe.
Começa como uma série de greves estudantis em universidades e liceus de Paris, após confrontos com a administração das escolas e com a polícia. A tentativa do governo de de Gaulle de esmagar essas greves com violentas acções policiais no Quartier Latin levou a uma escalada do conflito que culminou numa greve geral dos estudantes e em greves de trabalhadores, com ocupações de fábricas em toda a França às quais aderiram dez milhões de pessoas, aproximadamente dois terços da massa trabalhadora de França. Os protestos chegaram ao ponto de levar de Gaulle a criar um quartel-general de operações militares para lidar com a insurreição, dissolver a Assembleia Nacional e marcar eleições parlamentares para 23 de Junho de 1968.
O governo ficou à beira do colapso (de Gaulle chegou a refugiar-se temporariamente numa base da força aérea na Alemanha), mas a situação revolucionária evaporou-se quase tão rapidamente quanto havia surgido. Os trabalhadores voltaram ao trabalho, seguindo a direcção da Confédération Générale du Travail, a federação dos sindicatos da esquerda, e do Partido Comunista Francês – um passo atrás estratégico para fazer boa figura no processo eleitoral? Se foi, deram um tiro no pé - as eleições foram realizadas em Junho e o partido Gaullista emergiu ainda mais poderoso do que antes.
A maioria dos insurrectos era adepta de ideias esquerdistas, comunistas ou anarquistas. Muitos viram os eventos como uma oportunidade para minar os valores da “velha sociedade”, discutindo abertamente as suas ideias sobre educação, sexualidade e prazer. É desta altura também a sacralização de Che Guevara, o Cristo dos revolucionários de todo o mundo. Fica a imagem icónica:

Infelizmente a história acabou mal. Já todos a conhecem, não vou repeti-la. Mas como estamos em Maio esqueçam-se as tristezas. E fique a poesia, a uma só voz, de multidões inteiras que querem uma e a mesma coisa.

