Há uma Luz que nunca se Apaga

Lullabies to paralyze

Publicado em Pensamentos Imperfeitos by brunofontes em Maio 1st, 2008

Paula Rego

 

Como a Condessa de Ségur, Paula Rego faz-se criança a devorar histórias de embalar no desvelo,  e vai moldar na terra dos sonhos as cenas impressionantes que o seu trabalho convoca. Os actores das suas telas são figuras muito rudes, sempre alheias aos mais normais padrões de beleza. Ainda que muitas vezes saídos de um catálogo da Disney ou de ilustrações de contos infantis, actuam como se estivessem numa pintura de Bosch, dignos habitantes de um inferno contemporâneo.
“Pinto para dar uma face ao medo”, disse uma ocasião. E pense-se: os nossos sonhos não espelham mais amiúde os nossos medos ou os nossos anseios do que as nossas alegrias?

Ao falar na Paula Rego lembro-me sempre de um outro nome, a meu ver indissociável -  a poetisa Adília Lopes. Já foi chamada a Paula Rego da poesia. E são de facto habitantes da mesma dimensão de onda, vizinhas de imaginário com uma sensibilidade que é siamesa. Veja-se o poema, com o título de “A bela acordada”, que transcrevo abaixo. Temos a dimensão familiar do conto infantil de recorte europeu servida com um tempero grotesco, trazendo fantasmas como o amor, a solidão e um certo masoquismo. Mas eternamente feminino.

 

Era uma vez uma mulher que tão depressa era feia era bonita, as pessoas diziam-lhe:

- Eu amo-te.

E iam com ela para a cama e para a mesa.

Quando era feia, as mesmas pessoas diziam-lhe:

- Não gosto de ti.

E atiravam-lhe com caroços de azeitona à cabeça.

A mulher pediu a Deus:

- Faz-me bonita ou feia de uma vez por todas e para

sempre.

Então Deus fê-la feia.

A mulher chorou muito porque estava sempre a apanhar

com caroços de azeitona e a ouvir coisas feias. Só os animais

gostavam sempre dela, tanto quando era bonita como quando

era feia como agora que era sempre feia. Mas o amor dos animais

não lhe chegava. Por isso deitou-se a um poço. No poço,

estava um peixe que comeu a mulher de um trago só, sem a

mastigar.

Logo a seguir, passou pelo poço o criado do rei, que

pescou o peixe.

Na cozinha do palácio, as criadas, a arranjarem o peixe,

descobriram a mulher dentro do peixe. Como o peixe comeu a

mulher mal a mulher se matou e o criado pescou o peixe mal o

peixe comeu a mulher e as criadas abriram o peixe mal o peixe

foi pescado pelo criado, a mulher não morreu e o peixe

morreu.

As criadas e o rei eram muito bonitos. E a mulher ali era

tão feia que não era feia. Por isso, quando as criadas foram

chamar o rei e o rei entrou na cozinha e viu a mulher, o rei

apaixonou-se pela mulher.

- Será uma sereia ? – perguntaram em coro as criadas ao

rei.

- Não, não é uma sereia porque tem duas pernas, muito

tortas, uma mais curta do que a outra – respondeu o rei às

criadas.

E o rei convidou a mulher para jantar.

Ao jantar, o rei e a mulher comeram o peixe. O rei disse à

mulher quando as criadas se foram embora:

- Eu amo-te.

Quando o rei disse isto, sorriu à mulher e atirou-lhe com

uma azeitona inteira à cabeça. A mulher apanhou a azeitona e

comeu-a. Mas, antes de comer a azeitona, a mulher disse ao rei:

- Eu amo-te.

Depois comeu a azeitona. E casaram-se logo a seguir no

tapete de Arraiolos da casa de jantar.

 

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