Songs of love and hate

Leonard Cohen
Hoje vou falar do homem que escreveu, e que continua a escrever, as melhores palavras alguma vez escritas para serem cantadas. Não, não é o Bob Dylan, a querer ser o Allen Ginsberg da música. Nem o Jim Morrison, com um discurso por vezes postiço, desequilibrado. Com o maior respeito pelos dois senhores aqui citados e por tantos outros que exigem qualidade nos textos que vão cantar, há que reconhecê-lo: o Leonard Cohen, nestas coisas de palavras na música, é o Cavalheiro.
Este canadiano de nascimento já tinha idade para ter juízo e um ou outro livro de poesia publicado, com reconhecimento mediano, quando resolveu virar-se para a música no final dos sessenta. Deve ter olhado para o Bob Dylan e para o seu sucesso e pensou: “Bem, feio e judeu eu também sou, por isso…” Lançou o primeiro álbum, “Songs of Leonard Cohen” em 1967, que contém por exemplo, “Suzanne”, “So Long, Marianne” ou “Sisters of Mercy”, hoje hinos intemporais da música popular. Daí para a frente consolidou-se como músico de respeito, somando êxitos e êxtases, tendo o seu apogeu, na minha modesta opinião, com o álbum “Songs of love and hate”, de 1971.
As palavras? Com uma limpidez e um alcance semântico sem par, Cohen canta-nos com uma voz de barítono (que décadas depois se tornou mais grave) sobre temas como a solidão, a sexualidade ou a religião, sem pudores profanos em mesclar os três assuntos num só texto, com significados inesperados e arrebatadores, qual São João da Cruz ou Garcia Lorca (obviamente duas das suas referências literárias). A acompanhar, quase sempre apenas uma viola acústica, com um som despido mas fantasmagórico, ao mesmo tempo familiar e a anos-luz de tudo o que alguma vez ouvimos. Resultado, uma música onde até um “la la la la la la” pode conter mais emoção do que quaisquer palavras que ali se pudesse colocar. Ouçam “Sing another song, boys” (de “Songs of love and hate”) para perceberem onde quero chegar.
Não vou aqui colocar excertos de palavras dele, nem links para vídeos. São escolhas demasiado difíceis para se fazer a sangue-frio, e a solução seria colocar muita coisa (tudo?), e isso é incomportável. Procurem, ouçam. A vossa vida vai mudar. Não digam que não avisei.