É tarefa difícil falar sobre Caim, visto que já toda a gente falou. Ontem até houve um debate em horário prime time. Não vi bem a coisa, mas pareceu-me, do que ouvi, que estiveram os três muito mal. Ainda consigo perdoar o Saramago, que tem mais de 80 anos, logo já não tem vida nem cabeça para isto. Mas agora o padre e o jornalista…
Enfim. Os padres dizem que o Saramago não entende a Bíblia. Talvez tenham razão. O Vasco Pulido Valente, na sua crónica de ontem, declarou que o Saramago não escreve bem porque não tem estudos superiores. Seria de esperar essa posição de um defensor dessa média burguesia esclarecida, que vê no Saramago um outsider que os ultrapassou, e daí a antipatia que lhe votam. E como são essas as pessoas que mandam no país, pelo menos ao nível das ideias, toda a gente, por uma espécie de osmose, diz que o livro do Saramago é uma merda. Nada de novo até aqui.
E por falar em nada de novo – quantas dessas pessoas terão lido o livro? Caso alguém não tenha reparado, é de um livro que se está a falar. Posso enganar-me, mas penso que é preciso ler esse livro antes de se dizer se é uma merda ou não.
É o que vou fazer, antes de me pôr a opinar. Não sei quanto tempo vou demorar; como é natural tenho outras coisas para fazer. Assim que tenha lido o livro, pois vou opinar.
Até lá fiquemos com o trailer do livro (até os livros já tem trailer!):
É uma das declarações de David Lynch no video que vos deixo. Com esta declaração ele fala sobre todos nós.
A verdade, uma necessidade vital, mesmo que contra a nossa essência, o nosso conforto, o nosso bem-estar. É assim que o ser humano funciona. Isso é muito bonito.
O ser humano não quer lidar com o estranho e com o desconhecido. David Lynch sabe-o. Desde o início. Desde Erasehead.
Figueira da Foz: último Bastião da Igreja Católica Apostólica Romana, ou Sede Oficial do seu (re)florescimento?
Há algumas semanas um dos eméritos representantes desta igreja moribunda (?), em tertúlia realizada no Casino da Figueira, exortou os seguidores a terem “cautela” com os casamentos com muçulmanos. Ontem, no mesmo local, um outro declarou que a união homossexual “não é normal”, não sendo porém, em princípio, contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Um amigo dizia-me: “A Igreja Católica está em risco de desaparecer a médio prazo, a menos que consiga captar novos fiéis, ou fiéis mais novos, vai dar ao mesmo”. E depois perguntava: “É assim, como esta tacanhez moral que eles vão lá?”.
A minha resposta: da maneira como o mundo avança, talvez seja mesmo assim que lá hão-de ir.
Manhã de ouro lhe poderíamos chamar se de ouro fora a primeira manhã
Adão inconfessado, e nada saberemos da primeira manhã
se afinal de ouro se afinal de prata.
Ainda possível ter sido de estanho?
A primeira manhã assim imaginada estanho e a cena desenrolar-se-á
com maçãs de estanho, aves de estanho, rios de estanho…
Adão não seria de estanho?
Adão inconfessado, e nada se saberá da manhã original.
A primeira manhã, a primeira luz, a primeira vida, a primeira lua
Tu, querida, o desejarias saber, o sei,
era teu desejo saber de que metal fora a primeira manhã!
Evidentemente que (e aqui sente-se já um cansaço a obcecar a caneta)
evidentemente que dizia
etc., etc.
e a respeito da primeira manhã afinal
que não interessa sabê-lo.
Olha, morre como o cigano, o pior é ires à escola.
Ah, os poetas são decididamente afectados.
Que raio de ideia esta de saber da primeira manhã?
Londrina a de hoje, e basta para tomar um excelente duche quente
com a água a pôr fervura na pele
e mais nada.
Da primeira manhã. Adão que se faça poeta e no-lo diga que metal
António Gancho nasceu em 1940, em Évora. Aos 20 anos foi internado pelo seu pai no Hospital Psiquiátrico Júlio de Matos, após uma tentativa de suicídio. Desde então percorreu diversos hospitais psiquiátricos, até ser, em 1967, definitivamente internado na Casa de Saúde do Telhal.
Em 1973, António Gancho entregou a Herberto Helder trinta e seis poemas, dos quais este seleccionou onze que incluiu no seu livro Edoi Lelia Doura — Antologia das Vozes Comunicantes da Poesia Moderna Portuguesa. Há quem diga que quando leu os poemas Herberto Helder disse, “era assim que eu gostava de escrever”.
Dizia ser Luiz Vaz de Camões, Bocage, Kafka, Pessoa e todos os escritores que admirava. Parece que dava nomes às borbulhas que tinha na cara, e escrevia os nomes delas ao lado, na sua própria cara.
Morreu em 2005 no Hospício do Telhal, Lisboa, onde esteve “preso” 38 anos, no dia de Ano Novo. Dizem que morreu com um sorriso no rosto.
Deixou poemas com este, que falam da sua lucidez e da sua liberdade.